09 junho 2006

Entre fomentar e esvaziar, eis a questão.


Fomentar ou esvaziar? Eis a questão...
Escrito por Alexandre D’Angeli – responsável pelo núcleo ânima Dois da Cooperativa Paulista de Teatro


O ânima Dois tem participado das reuniões promovidas pela Cooperativa Paulista de Teatro em relação ao projeto de Lei de Fomento ao Teatro da cidade de São Paulo
[1]. Vamos neste semestre deixar também a nossa proposta para concorrer a uma parte desse montante que na verdade não é nada, pois a Prefeitura entende que embora divulgue um valor "x" este já está comprometido com o pagamento de parcelas anteriores devidas aos grupos que já foram contemplados. Ou seja, eu divulgo um frango inteiro para um número muito grande de famintos, entretanto, mais da metade dessa iguaria já está comprometida. Quem sabe não consigamos comer as asinhas? Parece piada, mas não é. Isso é a política pública dando sua contribuição à Cultura. Como disse o Ney Piacentini, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro ontem durante a reunião: “... é necessário agir com diplomacia para não quebrar essa relação entre artistas e a Prefeitura”. Dessa forma, acredito que embora trabalhemos o que sempre acontece é apertarem o pescoço da gente obrigando-nos a comer menos e consequentemente a gastar menos. O que há de disponível nesta edição do fomento gira em torno de R$ 1.500.000.000,00 para dezenas de companhias que resolverem propor seus projetos. Muito ou pouco? Fomentar ou esvaziar? Eis a questão? Penso que talvez seja interessante ter um olhar além do horizonte, mapear, ou como diz a Andréa do Amparo - integrante do ânima Dois: cartografar. Sim, buscar projetos, leis de incentivo estaduais, federais, prêmios, etc, que complementem ou ampliaem nossa atuação e forneçam subsídios para que possamos continuar trabalhando, "se" fomentando e por que não também se esvaziando, pois me parece que umas das questões mais enfatizadas nesses encontros, os chamados laboratórios de formatação de projetos é estar na medida, no ponto, nada de exageros - tudo deve estar adequado com a origem, atuação e pretensões futuras do grupo. O Fomento vem para estruturar e ser estruturante da pesquisa que a companhia realiza. Confesso que senti certo alívio ao ouvir isso no encontro dessa quinta-feira dia 08, pois de certa forma o ânima Dois já trabalha sem nenhum patrocínio ou lei de incentivo há um bom tempo. Talvez por opção, pois temos clareza que nosso percurso está adequado ao nosso momento de trabalho. Não era nossa intenção até então repassar ou dividir uma metodologia de trabalho que nem para nós que compomos a cia. estava madura. Temos sim convicção de continuar trabalhando, pesquisando não por mérito, mas por desejar criar e compreender o porquê somos uma cia. singular e diferenciada dentro de um contexto tão grande como é o fazer teatral dentro da cidade de São Paulo. O alívio veio, talvez pelo fato de já terem acontecido várias edições do Fomento e estarmos em transição onde certamente muitos profissionais questionaram e continuam questionando a formulação da lei, sua aplicação, manutenção e resultados dentro dos seus respectivos grupos de trabalho. Alívio, pois, me fez entender as palavras do Antônio Rogério Toscano quando respondeu de forma clara as perguntas a partir de sua participação em edições anteriores da Lei de Fomento, quando aponta para questões mais pertinentes e que foge ao artificialismo inerente ao nosso ideal de um bom projeto, uma boa formatação e quando abre ao público fatos acontecidos durante seus trabalhos, como a discussão que os membros da comissão tiveram para entender a proposta de grupos com pesquisa num campo interdisciplinar e/ou fronteiriça e da necessidade por parte dos grupos de compreender a Lei como um todo, onde é de fundamental importância nossa participação também na indicação e escolha dos membros que irão compor essa comissão tendo a priore, conhecimento do seu percurso e qual entendimento este ou aquele profissional tem a respeito da pesquisa que pretende-se desenvolver.

Toscano relembra ainda, que seria um bom começo o grupo definir dentro do cerne do seu trabalho o que entende por pesquisa teatral
[2]. Conceituar isso inicialmente, dentro das diretrizes que compõem sua prática é fundamental para propor seu projeto. Estar atento é no mínimo um bom exercício para que não entremos numa padronização. Fato que já é evidente dentre as centenas de propostas recebidas a cada edição, recheadas de estratégias para tentar convencer que o seu é mais adequado que o do outro, embora seja evidente que tudo ali parece descolar-se da proposta inicial do grupo, do seu percurso e do próximo passo que se pretende dar. A contrapartida social pareceu-me ser uma das questões que também são compreendidas de forma muito limitada pelos grupos, pois são freqüentes nos projetos proposições ligadas ao puro assistencialismo e a falta de consciência em relação a práxis teatral, reduzindo nosso trabalho como simples entretenimento. Bem lembrado pelo integrante do Taanteatro Wolfgang Pannek quando diz que o acontecimento teatral, ou seja, o espetáculo, para ele já é compreendido como contrapartida social. É claro e acredito que para cada grupo a contrapartida social seja diferenciada, e deve ser, pois depende do percurso deste grupo e até mesmo do seu histórico. Rediscutir e rever o entendimento a respeito é fundamental para ter real dimensão de uma das partes estruturantes e por que não uma das mais importantes de um projeto como este.

Fomentar ou esvaziar? Hoje o ânima Dois quer fomentar.

[1] Aprovado em 2001, o projeto de lei do vereador Vicente Cândido (PT), que institui o Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, foi uma reivindicação do movimento "Arte contra a Barbárie", formado em 1999 por sete companhias teatrais de São Paulo. O projeto, instituído em 2002, tem o intuito de apoiar a manutenção e criação de projetos de trabalho de pesquisa e produção teatral visando ao desenvolvimento da arte e à ampliação do acesso à cultura de qualidade, a preço acessível.

[2] Convém distinguir a pesquisa fundamental daquela de formação profissional e de ensino de teatro nos conservatórios e universidades. A pesquisa fundamental sobre teatro impõe certa distância do objeto estudado, uma disponibilidade intelectual e institucional para conduzir uma investigação aprofundada sobre determinado aspecto da atividade teatral. Quase não existem mais estudiosos independentes e/ou eruditos que dedicam sua vida ao estudo do teatro; a pesquisa ocorre nas universidades a partir de mestrados e do doutorado, pois houve um afastamento dos pesquisadores e do corpo discente, raramente os “feitores” de teatro documentam seus espetáculos ou publicam revistas. Sem a sanção de um diploma universitário (mestrado, doutorado, livre-docência), a pesquisa parece não ter finalidade suficiente, uma vez que a publicação não é viável a não ser quando subvencionada pela Universidade o que influi verdadeiramente na circulação e difusão dos resultados. Enquanto a forma de pesquisa a mais freqüente é a da investigação individual que desemboca em uma tese de doutorado em formato de monografia, quase sempre ilegível e longa demais, que deverá ser reduzida e reescrita para publicação: um grande esforço para um resultado não adaptado à “comunicação moderna”.
Felizmente outras formas de investigação surgiram recentemente, renovando a pesquisa:
-abertura de mestrados até mesmo de doutorados práticos: um memorial acompanha a experiência ainda que limitada, de encenação, de atuação, ou de escritura (entretanto são raras as universidades que fornecem as instalações necessárias à experimentação prática*);
- observação do processo de preparação de um espetáculo, durante os ensaios, “observação participante” de estagiários ou assistentes da encenação, da cenografia e da parte técnica;
- organização, cada vez mais freqüente, de colóquios temáticos sobre determinado aspecto da criação ou da atualidade;
- encontros entre praticantes e historiadores/teóricos: artistas são convidados a mostrar seu método de trabalho com atores ou dançarinos, sob o olhar crítico e com os comentários dos “acadêmicos”. Dessa forma tenta-se recriar uma situação de laboratório no qual um público reduzido de trabalho de artistas – o que, por outro lado, sempre falseia um pouco as condições de atuação.
Deve-se especialmente adaptar seus métodos e suas questões ao objeto concomitantemente estudado.

Trecho extraído da definição para pesquisa teatral – Pavis, Dicionário de Teatro (1996 p.291-292)

* Incluo aqui também as Leis de incentivo que podem ser mais um espaço para esse tipo de experimentação, subsidiando a pesquisa de grupos que se propõem a investigar a prática deste fazer.

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